Depois de muito ler sobre o assunto pela web, resolvi fazer um pequeno resumo do que está rolando em função da decisão da Apple sobre a política 3.3.1. Para quem não sabe, a política de uso 3.3.1 restringe que aplicações desenvolvidas para iOS contenham uso de apenas as APIs exclusivamente documentadas pela Apple. O que significa que, em termos práticos, produtos como o Flash CS5, o Mono-Touch (do pessoal de C#), o Unity e muitos outros ficam proibidos de desenvolver aplicações para a plataforma Apple através de seus compiladores.
Essa política da Apple é, no mínimo, arriscada, pois afasta de seus produtos uma legião de desenvolvedores com vasta experiência em jogos e aplicações multimídia de sua plataforma. Isso ocorre por vários motivos, entre eles:
1. Aprender e me especializar em Objective-C? Não, obrigado.Quem já viu por aí trechos e conceitos utilizados em Objective-C na hora faz careta. É algo que consegue ser mais chato que C++, o que, convenhamos, não é nada fácil de superar nesse quesito. Quem está acostumado a desenvolver em Java, C#, Phyton, ActionScript e muitas outras linguagens - com IDEs parrudas como Eclipse, Netbeans e Visual Studio - e com experiência no assunto multimídia, sabe que Objective-C não é algo que se queira tornar um 'especialista'. É quase um retrocesso. Se não é um retrocesso, cheira como um. Em um momento em que se fala de convergência, criar uma barreira de linguagem como essa não é muito sábio.
Outra coisa é o custo elevadíssimo que teriam as empresas em manter um profissional ou projeto que fossse web (em C# por exemplo) e iOS simultaneamente.
2. Compiladores como Flash CS5 e Mono-touch não constroem um "Flashplayer" ou o .NET Framework dentro do iPhone/iPad. Não vou nem entrar no mérito das discussões burras de "Flash é uma merda" ou "Flash não é uma merda". Mesmo porque o que é uma merda não é uma linguagem, mas o desenvolvedor incompetente. Tem muito site dando mais excessão e erro de Javascritp do que Nova York tem de táxi. Mas a questão aqui não é essa. Os terceiros, como Flash CS5, Mono-touch, Unity e muitos outros não constroem um FlashPlayer dentro do iPad ou do iPhone. Nem são "geradores de código", como os fãs cegos da Apple gostam de alardear. Esses compiladores compilam nativamente para iPhone. E o que é compilar, afinal? É escrever DIRETAMENTE o bytecode. Por isso, cuidado. Isso de que "a Apple não vai permitir o Flash CS5 compilar para iPhone porque o FlashPlayer é uma merda" é uma afirmação no mínimo ignorante, para não dizer outra coisa. Outro argumento falível - muito bem notado
nesse artigo, é que a Apple Store não é uma coletânea de aplicações que representa o estado da arte no desenvolvimento de software- assim como a internet também não é e mesmo assim conseguimos encontrar o que é e o que não é bom.
3. A forma como a Apple agiu frente a essas possibilidades de terceiros denota uma empresa pouco confiável para ter como parceira de desenvolvedores.
Foi grave a atitude da Apple. Principalmente por esperar até há poucas horas do lançamento da suíte CS5 da Adobe para anunciar esse bloqueio. Não que a Apple deva morrer de amores pela Adobe. Isso não é questão de 'consideração' entre elas. Mas é um sinal de como a Apple pode ser arbitrária e imprevisível. É como fazer negócio com a Venezuela ou com Cuba. Hoje está tudo bem, mas a qualquer momento alguém pode acordar de mal humor e jogar meses ou anos de esforço de milhares de desenvolvedores na lata do lixo. Fico agora imaginando como está a cara do pessoal do Unity, do Mono, da Titanium que podem ficar, assim como a Adobe, com muito dinheiro e esforços valendo pouco menos do que zero. E de uma forma súbita e imprevisível. É agindo dessa forma que, no mercado de capitais, você leva uma empresa - ou nação - ao descrédito: mudando políticas e regras de negócio ao sabor do vento.
O que ocorreu é que a Apple se sentiu ameçada por correr o risco de ter apps para seus gadgets fora da Apple Store, ou seja, sem receber sua devida "comissão". Nada mais. Não é pela 'qualidade' do produto - que, aliás, a Apple já tem um discutível esquema de censura que leva mais de 2 meses para aprovar ou censurar uma aplicação de ser comercializada em sua loja virtual.
4. Por que a discussão de formato proprietário nunca envolve a Apple, só a Adobe e a Microsoft?Uma das coisas mais curiosas é ver todo o pessoal de PHP, Joomla, Web Standards, defendendo as políticas monopolistas e gananciosas da Apple, e 10 minutos depois falar do quão bom é o Linux, que é aberto, livre e etc e como a Microsoft é uma gananciosa, inescrupulosa, etc etc. Não poderiam ser mais incongruentes do que estão sendo agora. A Apple chegou a um estado de marketing tão excelente que chega a cegar e alienar mesmo os profissionais da área, impedindo-os de ver que, justamente eles, estão sendo lentamente excluídos nesse processo.
5. Agora por cima da carne seca, mas isso pode mudarO crescimento expressivo do Android e os planos do Google para uma tablet são apenas dois exemplos de possíveis concorrentes. Acontece que, até agora, o Google tem se mostrado
muito mais inteligente que a Apple nesse quesito, permitindo que todos possam contribuir com o crescimento do ambiente. Tomara que a Apple tenha a coragem de reconhecer que precisa sim dos desenvolvedores, sejam de Flash, C#, Phyton, Unity3D e várias outras linguagens. Ou esse "não" - que hoje é ostensivo e arrogante - pode ser a primeira palavra a ser lembrada quando a Apple se vir frente a concorrentes a altura. O futuro dirá.
Para encerrar, e ilustrar exatamente o que está ocorrendo, com algum humor, veja o
texto de Joa sobre o assunto. É divertido e terrivelmente real.