Máximas de um país mínimo

Xuxa tem razão. Gnomos existem mesmo. Tenho que dar o braço a torcer para todas as risadas que já dei sobre o assunto. Desculpe, gnomos dessa e de outra dimensão. Explico: em dezembro de 2009 fui ao lançamento do livro "Máximas de um país mínimo" do Reinaldo Azevedo, jornalista que gosto muito, por seu senso crítico e acertivo. Mas o assunto não é o Reinaldo e sim o livro. Em tal ocasião comprei dois livros que estavam sendo lançados. Um para mim, outro para meu pai. E, como todo fã, pedi, todo embaraçado e sem jeito, autógrafos em ambos. Levei também o meu exemplar de "O país dos Petralhas" para o mesmo fim.

O problema foi que, naquela época de final de ano, Natal, e encontros similares, o tal livro - justo o do meu pai - sumiu. Mas sumiu de tal forma que não pude acreditar: procurei em TODOS os lugares. Revirei o carro de cima a baixo e nada. Desisti. Resignei-me. E lamentei: quando o Reinaldo vai lançar outro livro para eu repor essa perda? Bom. Muita coisa aconteceu no carro: foi lavado de lá pra cá inúmeras vezes, várias vezes pessoas estavam no banco de trás do carro etc etc. Eis que hoje aparece o livro, caprichosamente embaixo do banco. Sem um arranhão, sem um pisão, sequer empoeirado. Nada. Perfeito estado de conservação, como se acabasse de comprar na loja. Nem uma orelnhina, nem uma página, nem um único encardidinho na lateral das folhas unidas.

Com um atraso de 6 mêses, eis que meu pai receberá hoje o livro do Reinaldo.

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Claro Enigma

E Drummond foi o maior. Ops! Foi, não. Drummond É o maior. Drummond é, mesmo pós-morte, o maior. Porque Drummond não pertence mais a si próprio. Drummond não conseguiu levar para o túmulo seu bem mais precioso: ele mesmo. O que foi de Drummond é algo que não pesa nos ombros, nem pesa uma mão de uma criança. Pesa sim a ausência de sua caneta em movimento. Mas a ausência, já tão assimilada, não faz mais falta. Drummond, do mundo, ninguém mais tira. Como maior poeta do mundo pós-guerra, só lhe faz companhia aqueles que a humanidade é devedora: Ezra Pound, T. S. Eliot, W. B. Yeats, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes.

O poema que escolhi para postar é forte, concentrado. Não tão quanto seus irmãos mais condecorados, como "À mesa" e "A Máquina do Mundo". Mas, afinal, esse é um post num blog. E antes que vire livro, vamos fazer logo o ctrl + v:

Oficina Irritada

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Claro Enigma. 14ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2001. 173 p.

Claro_enigma

PS: Quando Tom Jobim estava compondo "Wave", tem aquele verso "O amor se deixa surpreender / Enquanto a noite vem nos envolver". Veio exatamente de Oficina Irritada. Se não me engano li isso no livro Tons Sobre Tom, do Tárik de Souza.